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Resenha: Enéas Athanázio retoma a temática indígena em Indiologia Militante

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Indiologia Militante, de Enéas Athanázio
Indiologia Militante, de Enéas Athanázio

Quarta, 11/4/2018 16:58.

Por Guilherme Queiroz de Macedo (*)

O livro, de autoria de Enéas Athanázio, com belíssima capa de Jean Pierre Valim e “dedicado aos valentes companheiros do Manifesto Nheçuano”, lançados nos 25 anos da Editora Minarete, marcam o retorno à temática indígena em livro, já abordada há 15 anos em Mundo Índio (2003). A obra contém quinze artigos que retratam e abordam as diversas facetas e aspectos da temática indígena que, apesar da Lei 11645/2008, que determina o estudo da “História e Cultura Afro-brasileira e indígena”, ainda hoje não é muito conhecida em seus múltiplos e variados aspectos, pela maioria da população brasileira. O livro enfoca a diversidade e as várias facetas da questão indígena enfocando, sobretudo, os estados de Santa Catarina, Piauí e Rio Grande do Sul.

1 – A herança indígena

No primeiro artigo, Enéas aborda os diversos aspectos que envolvem a multicultural diversidade da herança indígena brasileira e as dificuldades que os povos indígenas brasileiros enfrentam na atualidade, para defender a sua cultura e seu território.

2 – A questão indígena

No segundo artigo, Athanázio alerta para a questão mais grave que, em sua visão, envolve o futuro dos indígenas brasileiros: a ameaça da aprovação da PEC 215, que transfere do Poder Executivo para o Legislativo a competência de decisória sobre as demarcações das terras indígenas. Nesta perspectiva, o autor salienta as graves e nefastas consequências que tal medida provocará, concluindo de forma contundente o seu artigo com a palavra de ordem: “Abaixo a PEC 215!!!”. Afinal, o próprio autor ainda cita no final do artigo, o brado do historiador gaúcho Ruy Nedel: “esta terra teve dono!!!”, considerando que os portugueses e descendentes a invadiram desde o ano de 1500.

3 – A revolta nativista

No terceiro artigo, o autor retoma os escritos a respeito dos povos indígenas da Região Missioneira, no Rio Grande do Sul, abordando autores e pesquisadores que fazem parte do Manifesto e Movimento Nheçuano, para os quais dedicou a obra, enfocando novas abordagens dos conflitos que envolveram os jesuítas e os indígenas na Terra de Nheçu, que foram também enfocados em livro de sua autoria – Mundo Índio (2003). Referindo-se ao líder do povo Nheçuano Guarani, o autor conclui que Nheçu “embora vencido, seu grito libertário ecoa ainda hoje em toda a região e seu nome se avulta nos anais históricos, agora em processo de revisão”.

4 – A terra sem mal

No quarto artigo, o autor faz referência à obra cuja autora revela-nos que o famoso Caminho de Peabiru, conhecido como a “terra sem mal”, considerada como uma das mais conhecidas narrativas indígenas. O que nos mostra que, de acordo com a mesma autora, “os guaranis alcançaram elevado grau de desenvolvimento técnico e científico, dominando muitos conhecimentos antes mesmo de serem descobertos pelos sábios europeus”.

5 – A tristeza ancestral dos espoliados

No quinto artigo, Athanázio retoma a exposição “Indianidade”, de um artista plástico, comentada em Mundo Índio (2003), para fazer referência a uma expressão que utilizou ao comentar a referida exposição e que dá título ao artigo. O autor utiliza-se novamente da expressão “a tristeza ancestral dos espoliados” ao analisar uma obra sobre os povos indígenas do Estado do Piauí, de autoria de Reginaldo Miranda.

6 – Bugreiros de perto e de longe

No sexto artigo, o autor enfoca dos bugreiros de perto e de longe quando, ao retomar a figura de Martinho Bugreiro, Athanázio faz referência aos mesmos bugreiros que atuavam no Estado do Piauí, ao analisar mais uma obra de autoria de Reginaldo Miranda.

7 – Homens invisíveis

No sétimo artigo, Enéas refere-se ao antropólogo Sidney Possuelo e suas expedições de contatos com os indígenas, entre junho e setembro de 2002, resultando no livro “Homens Invisíveis”.

8 – Indiologia Militante

No oitavo artigo, que dá título à obra de Athanázio, objeto desta resenha, o autor comenta e analisa as leituras que fez de duas obras a respeito da temática indígena, que sempre lê e relê: “Diários Índios”, de Darcy Ribeiro e “Trabalho Índio em Terra de Vera ou Santa Cruz”, de José Martins Catharino.

Enéas retoma a leitura da obra de Darcy Ribeiro, que também foi objeto de análise em Mundo Índio (2003). Na obra de Martins Catharino, faz referência a dois ensaios publicados, sobretudo das especificidades sociais, econômicas e culturais dos indígenas em relação aos europeus. Nesta perspectiva, o autor critica o senso comum da maioria das pessoas, que, até hoje, atribuem ao índio o defeito de não ser trabalhador. No entanto, na visão de Athanázio, “os índios, pelo contrário, sempre trabalharam e muito, mas de outra forma”, salientando que “enquanto os europeus trabalhavam pela propriedade, para o mercado, pelo lucro e pela poupança, os índios não visavam nada disso”. O autor expõe as variadas facetas do trabalho indígena, ressaltando que o trabalho era “constante e árduo”.

Neste sentido, o autor considera ambas as obras como verdadeiros “Tratados de Indiologia”, explicitando o conceito, ainda não dicionarizado, como “estudo, campo de estudo, estudo de um assunto em particular”, para concluir reafirmando o sentido do título da obra objeto da presente resenha, que “nós não apenas estudamos o índio, mas estamos lutando por ele. Praticamos uma indiologia militante”.

O autor ainda faz referência ao espanto que os indígenas revelavam ao perceberem que Darcy Ribeiro reservava comida para o dia seguinte, o que nos faz lembrar da obra de Jean de Lery, escrita na época do Brasil Colônia, que reproduz um diálogo entre um europeu e um indígena, que questionava o colonizador por que, para onde e para que levava tanta madeira (Pau-brasil). Diante da resposta do europeu, dizendo que era para vender, lucrar e deixar de herança para os filhos, o indígena chama o europeu de louco, pois eles (os indígenas) exploravam a natureza, mas sem a destruir e sem se preocupar em acumular mais e mais riquezas para deixar para os filhos.

9 – O chão de Nheçu

No nono artigo, o autor faz referência à Terra de Nheçu, relatando e retratando a tomada das terras indígenas (Nesuretugue) dos povos liderados por Nheçu. A reação indígena e a contraofensiva dos colonizadores nos foi retratada em cores fortes e vibrantes por Athanázio, que conclui: “abriu-se um buraco negro de mais de trezentos anos. Iniciando-se pela tragédia, a história da região sofre um hiato descomunal em que impera o silêncio do desconhecido após o trágico desaparecimento e morte de Nheçu”, em análise da obra “Terra de Nheçu”, de autoria de Nelson Hoffman.

10 – O fantástico mundo da etimologia

No décimo artigo, Enéas trata da etimologia dos nomes, cidades e acidentes geográficos de origem indígena em Santa Catarina, analisando o livro de autoria do Prof. Lino João Dell’Antonio, o qual traça um painel completo da presença indígena no Estado de Santa Catarina.

11 – O manifesto Nheçuano

No décimo primeiro artigo, o autor retoma a temática do Manifesto Nheçuano, para fazer uma referência às origens do Movimento Nheçuano, no resgate histórico e crítico da memória do cacique e pajé Nheçu, questionando a história do vencedor, que sempre colocava o vencido (Nheçu e seus guerreiros) como o grande causador dos conflitos entre indígenas e jesuítas na Região Missioneira, sempre se empenhando em denegrir a sua memória.

Athanázio recorda as circunstâncias nas quais escreveu e publicou “Em Defesa de Nheçu” e diversos artigos sobre o tema, publicados em Mundo Índio (2003), o que considero um verdadeiro libelo histórico e crítico. O autor reafirma em seu artigo que sempre considerou o movimento e o manifesto como oportunos e de interesse permanentes: “contra essa visão única e dominante se ergue agora a voz do Manifesto Nheçuano, num trabalho revisionista e justiceiro que aliás deveria ser repetido em inúmeros outros episódios da história nacional”. Enéas faz também referência ao Manifesto Nheçuano do qual participou de várias edições (vide “Jornada Heróica” In: Fiapos de Vida 2, 2004 e “Viagem a Terra de Nheçu: uma viagem complicada” In: O Pó da Estrada 1, 2008), onde teve a honra de fazer o encerramento falando sobre a vida e as dificuldades enfrentadas pelos povos indígenas na região do Contestado em Santa Catarina.

12 – O mito do vazio

O autor inicia o décimo segundo artigo afirmando que “no início da colonização de nosso país, as potências ibéricas e os colonizadores tomaram as decisões a respeito do território brasileiro como se ele fosse um completo vazio”. Deste modo “nem de longe consideravam a existência de milhões de habitantes que aqui viviam desde tempos imemoriais”. Ainda segundo o autor, a maioria dos habitantes do chamado Novo Mundo viviam “em adiantado estágio de organização social, com seus rudimentos de governo e justiça, celebrando com respeito ritos herdados dos ancestrais”. No entanto, “vigorava entre os europeus o mito do vazio demográfico”, como se “a terra e tudo que nela continha estivesse à espera de mãos hábeis que dali extrairiam riquezas”.

Nesta perspectiva, o autor discute e problematiza a postura do colonizador e da ideologia dominante, para o qual “os cinco milhões de indígenas não existiam”, considerando-os ainda “como seres bárbaros destituídos de humanidade, um embaraço, um estorvo á colonização”. Desta forma, justificavam-se “aos olhos dos europeus, todas as atrocidades cometidas contra os índios”.

A análise penetrante de Athanázio, do livro “Os índios e seus algozes”, de Milton Ivan Heller, é uma verdadeira aula de História do Brasil Colônia, na qual Enéas situa e enfoca a abordagem de Heller em relação aos povos indígenas de Santa Catarina, questionando a memória histórica oficial e da história do vencedor, construída em torno de alguns líderes indígenas que não passavam de “colaboracionistas”, como Condá e Viry, que agiram contra os verdadeiros e legítimos interesses dos povos indígenas. A análise de Athanázio do livro e autor acima mencionado contribui, de forma importante, para que a história do vencido seja colocada, de forma crítica, em contraponto com a história do vencedor, contribuindo para restabelecer a verdade histórica.

13 – Os donos da terra

No décimo terceiro artigo, o autor recorda-se dos seus tempos de estudante, quando passava suas férias em Calmon, na região do Contestado, ao relembrar a existência de um pequeno aldeamento indígena dos Cainguangues, conhecido como o Toldo do Quati e de seu cacique, Tipoti, conhecido personagem de um conto do autor, intitulado “O Batizado”, publicado em Mundo Índio (2003).

Em seu relato, Enéas relata o cotidiano do cacique vendendo produtos artesanais de baixo valor, no momento da passagem do trem diário, que fazia uma de suas paradas na Estação de Calmon. Desde sua mocidade, o narrador-protagonista considerava aquela situação injusta, relatando a triste e humilhante condição a que se viu reduzido o chefe da tribo que, além disso, era obrigado a ouvir calado as piadas e chacotas preconceituosas contra os seus produtos artesanais, a sua pessoa e o seu povo. O autor rememora que, ao comentar o caso com a sua mãe, ela contou o que ocorreu quando Tipoti quis batizar o seu filho, revelando que ela e o seu padastro foram os únicos que aceitaram o convite, após Tipoti ouvir várias vezes que “bugre não precisa de batismo”. A história acabou sendo transformada no conto “O Batizado” e publicada em 2003 no livro “Mundo Índio”.

Em seguida, o autor relata os primeiros contatos que teve com a história de Nheçu, cacique e pajé da Região Missioneira do Rio Grande do Sul, escrevendo um ensaio que se tornou um autêntico e legítimo libelo em defesa do líder da tribo, tão injustiçado pela memória oficial e história do vencedor, mesmo após trezentos anos do conflito, publicada também no livro “Mundo Índio” (2003), sob o título de “Em defesa de Nheçu”, no qual Athanázio dirige-se ao “Egrégio Tribunal da História”, as suas “Alegações Finais” em defesa de Nheçu.

Mais adiante, Enéas conclui o artigo, relatando como recebeu o convite para participar do Manifesto Nheçuano, em Roque Gonzales, fatos também relatados, com riqueza de detalhes em “Jornada Heróica” (In: Fiapos de Vida 2, 2004) e em Viagem à Terra de Nheçu: uma viagem complicada” (In: O Pó da Estrada 1, 2008).

14 – Os novos bugreiros

No décimo quarto artigo, Enéas faz referência a uma reportagem a respeito dos problemas e dificuldades enfrentados pelos povos indígenas em Santa Catarina, de autoria da antropóloga Rosana Bond, na qual “não poupa críticas à maneira como o problema do índio vem sendo tratado em Santa Catarina”. No Estado catarinense, “o preconceito se encobre sob formas sutis de comportamento”.

Athanázio faz considerações em trono das palavras bugre e bugreiro, não deixando de mencionar o mais conhecido esquadrão de bugreiros, liderado por Martinho Bugreiro, citando as obras fundamentais de José Finardi e de Sílvio Coelho dos Santos. Mas não podemos deixar de lembrar do ensaio, intitulado “Martinho Bugreiro: criminoso ou herói?” (publicado em Separata na Revista Blumenau em Cadernos e em livro em 1985) e do conto “Estranhos na Fazenda”, publicado em “Mundo Índio” (2003), a respeito do célebre personagem, ambos de autoria de Enéas.

O autor ainda menciona a atitude do prefeito de Gaspar, que transformou em Horto Florestal uma área que seria destinada aos indígenas pela FUNAI, utilizando-se da velha e manjada tática de “jogar povo contra povo”. E enfatiza, como em outro artigo anterior do mesmo livro – “Os donos da terra” – os preconceitos sofridos tanto pelos indígenas de perto em sua terra natal (Calmon – SC) e quanto pelos indígenas de longe na Região Missioneira (RS), concluindo que “Isso me faz lembrar do preconceito que existia em Calmon contra os índios do Toldo do Quati que, aliás, desapareceram sem deixar vestígios”. E vai mais além, relembrando, de forma bastante pertinente e oportuna, que: “os estudos históricos que vem sendo feitos a respeito do célebre cacique Nheçu, da região fronteiriça do Rio Grande do Sul, até há pouco demonizado pela história oficial”.

15 – Simbolismo Cultural

No décimo quinto e último artigo, Athanázio encerra a coletânea de artigos, fazendo uma abordagem das questões em torno do simbolismo cultural indígena, como a origem e o significado dos adornos utilizados pelos indígenas brasileiros, os quais “expressam a resistência e a manifestação da cultura dos povos indígenas contra a influência de culturas estranhas que ameaçam destruir a cultura autóctone”. Ainda de acordo com o autor, o desaparecimento das culturas indígenas “constituiria o fim da organização da vida indígena e do próprio índio como indivíduo desgarrado de suas raízes, o que afetaria a sua própria identidade, tornando-o perdido, isolado, infeliz”. Neste sentido, “não seria mais índio, mas também não seria branco e não encontraria seu lugar no mundo, como um desterrado”. O autor também ressalta que o simbolismo cultural indígena é uma “manifestação de uma identidade particular e coletiva, o que nunca foi entendido pelos colonizadores”, causando resultados historicamente trágicos.

Em seguida, Enéas salienta que “a expressão cultural indígena também se manifesta na etnografia e na arte desses povos”, ponderando que “a fidelidade a tais usos e costumes não impede que os indígenas absorvam certas práticas modernas, sem que, no entanto, percam sua condição racial”. Mais adiante, enfatiza que “a compreensão desse simbolismo cultural auxilia no entendimento do que é a identidade indígena”. Afinal, como conclui o autor, os indígenas “eram, afinal, os verdadeiros donos deste chão invadido por nós sem pedir licença e quase sempre pela força”. Athanázio fez suas considerações no último artigo do livro ao fazer referência a uma exposição de adornos indígenas, organizada pelo SESC/SP, cujo ensaio e fotos foram publicados na Revista E, concluindo, de forma pertinente, que a contribuição da exposição “aponta no sentido da compreensão e do respeito aos povos indígenas brasileiros, tão espezinhados ao longo de nossa história”.

O livro "Indiologia Militante" e o opúsculo "Farquhar e Lobato: uma parceria improvável", com belíssimas e sugestivas capas, de Jean Pierre Vallin, a leitura de seus artigos nos proporcionou interessantes e instigantes impressões de leitura, que constituíram em verdadeiras aulas sobre as diversas facetas da multiculturalidade e da diversidade dos povos indígenas brasileiros, sobretudo de Santa Catarina, Piauí e Rio Grande do Sul. Enéas Athanázio está de parabéns pela publicação das duas obras, pois ambos os títulos são muito sugestivos. Além disso, o autor retoma a temática indígena, já abordada em Mundo Índio (2003) e a temática lobatiana, reunida pela última vez em livro em As Antecipações de Lobato e outros escritos (2002), no ano em que também se completam 70 anos de seu falecimento, momento em que a publicação de suas obras poderá ser feita por qualquer editora, rompendo o monopólio da Globo, que tomou as edições da Brasiliense, fundada por Lobato, há alguns anos.

Guilherme Queiroz de Macedo é Licenciado em História e Pedagogia – UFMG (*)

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